Pequenas utopias são possíveis


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Oficinas do Convento. Tiago Fróis fala sobre o que ali se faz.

Em Montemor-o-Novo, uma pequenina cidade alentejana com menos de 12 mil habitantes, a 100 Km de Lisboa, existe uma comunidade cultural provavelmente única em Portugal. Os seus principais polos de atração são O Espaço do Tempo, centro coreográfico nascido no ano 2000, e dirigido por Rui Horta, situado no antigo Convento da Saudação, em pleno castelo de Montemor-o-Novo, e as Oficinas do Convento, uma associação cultural nascida em 1996-97, associada às artes da terra, como a olaria e a cerâmica tradicionais, mas também à investigação tecnológica centrada sobretudo nas artes computacionais, do som e dos novos media. Os seus membros têm vindo a usar o antigo Convento de São Francisco, património histórico municipal à espera de um grande restauro. Ambos os centros trabalham em rede com artistas, companhias, associações e instituições afins. Ambas têm uma programação anual de atividades intensa e recebem regularmente residentes para projetos de investigação individual, ou coletiva.

Desde 1960 que a população do concelho tem vindo a decair: 37 328 habitantes em 1960, 17 437 em 2011. Cerca de 12 mil vivem na sede do concelho. Território de latifúndio, a sua principal atividade económica é a produção de carne. Não creio, conhecendo as tendência globais do crescimento mundial, que o recente ‘boom’ turístico venha a modificar substancialmente o panorama hoje conhecido na direção de uma qualquer especulação desenfreada por estas paragens. Ou seja, o sítio continuará a ser propício para o crescimento orgânico da comunidade artística interdisciplinar e multidisciplinar que tem vindo a estabelecer-se paulatinamente naquele imenso concelho, e sobretudo na sua sede. A 13 Km de Montemor-o-Novo, em Foros de Vale Figueira, fica a Herdade do Freixo do Meio, dirigida por Alfredo Sendim Cunhal, um dos projetos de agricultura e vida sustentáveis mais interessantes do país. Resumindo, a 100 Km da capital formou-se, em menos de 20 anos, um novo habitat cultural cuja marca principal é uma espécie de filosofia da transição.

As sociedades industriais e pós-industriais estão a chegar ao fim, seja pelo esgotamento dos recursos limitados que as tornaram possíveis, seja pelos danos que a explosão de crescimento dos últimos 200 anos acabaria por inflingir à frágil superfície orgânica que recobre o planeta e à sua atmosfera. Com toda a tecnologia e todo o saber de que dispomos, a nossa capacidade de controlar os danos causados parece cada vez mais irrisória. São certezas e preocupações deste género que habitam a crescente comunidade cognitiva e criativa que se tem vindo a fixar naquela mancha (ainda) verde que alguns chamam a Sintra do Alentejo.

Em 1995-96 desenvolvi com outros artistas e arquitetos uma pequena utopia alentejana a que chamámos Parque Museu Virtual. Tratava-se, no essencial, de desenvolver, precisamente em Montemor-o-Novo, na herdade municipal da Adua, uma ‘cidade’, para as artes, as ciências e a tecnologia. Seria como que uma extensão futurista da estagnada cidade de Montemor-o-Novo, com aeródromo próprio, e excelentes ligações rodoviárias a Lisboa e Porto,, ao Algarve e Sevilha, e a Madrid. Aqui haveria um museu dedicado à arte virtual, à época, uma ideia menos precisa do que hoje é; mas também um observatório da paisagem e um picadeiro dedicado à arte de montar e conviver com esse ser ímpar que é o cavalo lusitano. Esta ideia para o futuro era e é contrária à especulação imobiliária, bem como aos muitos elefantes brancos que se edificam com dinheiro público, mas que ninguém cuida previamente de saber do seu uso, necessidade e sustentabilidade subsequentes ao negócio da especulação imobiliária e da construção.

Curiosamente, o presidente da câmara de então, Carlos Pinto de Sá, acarinhou a minha ideia, e conseguiu mesmo que fosse discutida e aprovada pela assembleia municipal. Fez-se uma exposição, com o patrocínio especial do Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC), que seria mostrada também em Lisboa, no Centro Cultural de Belém. Existe, felizmente, um catálogo para memória futura!

Não sei, agora que a comunidade cultural da cidade de Montemor-o-Novo cresceu e ganhou raízes, se não seria útil fazermos uma conversa, um fim-de-semana inteiro, sobre os méritos relativos e os limites de ambas as estratégias que acabaram por ocorrer: a primeira, nascida de uma ideia, de um esquisso, de uma metodologia, que as zangas sobre a Regionalização acabariam por comprometer, e outra, orgânica e quase silenciosa, que tem vindo a medrar. Agora, que temos um estado falido, os desafios tendem a aumentar exponencialmente, sobretudo quando as estruturas dependem quase totalmente da redistribuição fiscal. A sustentabilidade das ideias e das práticas tenderão, assim, a depender criticamente da sua intrínseca necessidade económica, social e cultural, e de uma certa escala capaz de atrair recursos exógenos, e de incrementar a resiliência das estruturas instaladas no terreno.

Gostava mesmo de voltar a Montemor-o-Novo para conversar sobre tudo isto. O desafio foi lançado pela professora e trave mestra das Oficinas do Convento, Virgínia Fróis, durante o magnífico dia em que o The New Art Fest realizou com enorme êxito um dos quatorze eventos que este ano fazem parte do festival.

Um obrigado muito especial ao Tiago Fróis.

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